sábado, 13 de junho de 2015

A biotecnologia na obtenção de ‘cosméticos verdes'


A busca por “cosméticos verdes” tem dirigido a indústria para a obtenção de produtos e processos cada vez mais eficientes e com o menor impacto ambiental possível. No centro desta discussão, o uso da Biotecnologia tem surgido como uma excelente alternativa.
Um grande número de homens e mulheres em todo o mundo não economiza dinheiro quando o assunto é beleza. O reflexo disto é que a indústria mundial de cosméticos atingiu a marca de US$ 350,3 bilhões em vendas no ano de 2009¹, com o mercado brasileiro bastante aquecido, crescendo em média 10,5%2 ao ano durante a última década e ocupando a terceira posição no ranking mundial². Contudo, o crescente avanço nas legislações ambientais, a normatização de regras de descarte de resíduos e a contínua mudança do perfil dos consumidores destes produtos, cada vez mais preocupados com a economia dos recursos naturais e “antenados” em inovações tecnológicas, faz com que a indústria cosmética esteja em contínuo aperfeiçoamento de seus produtos e processos em busca de “tecnologias verdes”.
Diante deste cenário, a utilização de técnicas biotecnológicas para o aperfeiçoamento de processos já existentes e / ou para a criação de novos conceitos e produtos tem emergido como uma alternativa à manufatura tradicional de cosméticos. Enzimas ativas, biopolímeros funcionais e produtos de origem fermentativa cada vez mais são utilizados como insumos ativos neste mercado³.
Embora o termo “biotecnologia” seja relativamente recente – foi introduzido em 1919 pelo engenheiro húngaro Karl Ereky – sua aplicação se confunde com os primeiros relatos do uso de cosméticos pela humanidade. Atualmente, a definição mais ampla de biotecnologia envolve “a aplicação tecnológica que faz uso de organismos vivos, sistemas ou processos biológicos, na pesquisa e no desenvolvimento, na manufatura ou na provisão de bens e serviços especializados”4. E de fato muitos produtos de prateleira já empregam a chamada biotecnologia clássica, pelo uso de extratos e ativos obtidos a partir de fontes naturais, como as plantas, por exemplo. Entretanto, cada vez mais o uso de processos fermentativos, tecnologias de DNA recombinante e de biocatalizadores possibilitam alternativas ecológicas para a obtenção de insumos ativos.
Um exemplo clássico é a obtenção do ácido hialurônico. Este glicosoaminoglicano aniônico não sulfatado é um biopolímero linear de alta massa molecular, muito utilizado como ingrediente ativo em produtos anti-aging. Ele é um componente naturalmente presente em nossa pele, e é um dos principais responsáveis pela característica lisa e elástica desta quando jovem5. Com o passar do tempo, a concentração desta substância na pele diminui, contribuindo para a desidratação e para o aparecimento das indesejadas rugas.
O mercado para a comercialização desta substância é estimado em mais de US$ 1 bilhão por ano no mundo5 e, desta maneira, alternativas para a sua obtenção estão em constante estudo por parte da indústria. Tradicionalmente, esta substância tem sido extraída de tecidos animais como o fluido sinovial e as cartilagens5. Entretanto, processos fermentativos envolvendo bactérias dos gêneros Streptococcus e Bacillus têm surgido como excelentes alternativas para a obtenção do ácido hialurônico, pois em geral estes processos apresentam maiores rendimentos, custos reduzidos e eliminam a necessidade de uma fonte de insumos de origem animal. Nestes processos fermentativos, as cepas das bactérias selecionadas (ou modificadas através de técnicas de engenharia genética) são cultivadas em fermentadores sob condições adequadas, previamente pesquisadas e desenvolvidas. Em condições consideradas ótimas, as bactérias podem produzir quantidades apreciáveis do produto desejado em poucas horas, e o subproduto deste processo é uma massa de bactérias que pode inclusive ser utilizada como fertilizante.
Outro exemplo envolve a utilização de processos com reações catalisadas por enzimas (biocatalizadores) como alternativa para a síntese orgânica convencional. Estes processos em geral permitem a obtenção de substâncias químicas ativas com altíssimo grau de pureza, pois enzimas proporcionam reações regioespecíficas (direcionadas para um ponto específico da molécula-alvo) e enantiosseletivas (destinada a obtenção de apenas um dos enantiomeros possíveis). Desta maneira, etapas de isolamento e purificação do produto desejado são minimizadas, permitindo a obtenção de um processo economicamente mais viável. Além disso, o uso de enzimas permite o desenvolvimento de processos isentos de solventes orgânicos tóxicos.
Tais estratégias já são empregadas na bioprodução do trans-resveratrol, um polifenol com atividade antioxidante marcante, e na obtenção do (-) mentol, um ativo muito utilizado em fragrâncias e que pode ser obtido através de síntese assistida por lípases (enzimas que atuam em lipídeos, Fig. 1). A maior vantagem em ambos os casos mencionados é o alto rendimento de produção dos compostos puros em larga escala através de um processo “verde”, sem a utilização de solventes tóxicos e com economia de recursos naturais.


Por: Gezimar D. de Souza e Rodrigo Facchini Magnani
Sobre mais informações, acesse:http://www.freedom.inf.br/artigos_tecnicos/hc63/artigo.asp

Um comentário:

  1. Isso mesmo ajudando nosso meio ambiente teremos um futuro melhor e mais sustentável!

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